segunda-feira, 10 de maio de 2010

Alice no País das Maravilhas



NOTA: 6


Não tem coisa mais frustrante do que ir assistir a um filme que não só eu, mas toda a mídia gerou uma enorme expectativa, em vão. E é exatamente isso que o novo filme de Tim Burton representa, uma frustração.

Baseado nos dois livros de Lewis Caroll (Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho), a história é uma continuação das demais, um retorno da Alice, já adolescente, ao País das Maravilhas para devolver o trono a Rainha Branca, tomado pela Rainha Vermelha.

O grande mérito do filme é, sem a menor sombra de dúvida, a direção de arte. Os cenários surrealistas, ora de cores vívidas e ora praticamente monocromáticos dão um toque especial à narrativa. Além disso, a caricaturação do personagens é outro trunfo à parte. Cito a Rainha Vermelha e o Chapeleiro Maluco para exemplificar. Os personagens digitais são igualmente fascinantes. Mas aí surge o primeiro tropeço de Tim: o Valete de Copas. Interpretado por um ator real, num corpo desenvolvido no computador, fica evidente a falta de sincronia entre ambos e a artificialidade dos movimentos do personagem aflora a todo momento em que ele surge.

Mas como nem tudo são flores, a direção de Burton deixa muito a desejar. A começar pela história da protagonista que é muito mal trabalhada. A história da Alice é repleta de lacunas, em especial no que diz respeito aos rumos de sua família após a morte de seu pai. Sem contar que fica tão cansativo a repetição dela de que "aquilo tudo não passa de um sonho." que tira aos poucos todo o interesse na narrativa. Ao invés de optar pelo silêncio tornando tudo um mistério, Tim segue a linha oposta já nos preparando para não ter muitas expectativas, pois no fim "tudo não passa de um sonho". 


E há alguns eventos no filme que não fazem a menor razão de estar lá. Qual o motivo da Alice receber aquela ferida no braço? Não soma em nada à narrativa. Cheguei a pensar que serviria de prova no mundo real de que ela esteve lá, contudo, quando ela retorna ninguém nota o imenso ferimento em seu braço. Tim também dá vida à espada que matará o monstro, mas quando finalmente a vemos, chegamos a conclusão de que não passa de um objeto inanimado, algo sem explicação para aquele estranho e inesperado mundo onde tudo tem vida própria.


O roteiro também é muito ruim. A preocupação excessiva em inserir personagens e cenários fazem com o que é mais importante, ou seja, a própria narrativa, passe atropelada e confusa, sendo esquecida por diversas vezes. E graças a "magnífica idéia" de existir um pergaminho profético que conta exatamente como a história termina, acabamos não tendo nenhuma surpresa pelo caminho. Sem contar que quando Alice retorna ao seu mundo, o filme se encerra com um dos finais mais clichês que já vi.

Os personagens são um caso a parte.

Johnny Depp (O Turista, Piratas do Caribe) é mais uma vez brilhante na construção de seu Chapeleiro Maluco, em especial na transição que há entre os seus momentos de alegria e fúria. Numa entrevista do ator, ele disse que na sua pesquisa descobriu que os chapeleiros do tempo de Caroll faziam uso de um produto que era alucinógeno, fazendo com que muitos deles se comportassem desse modo. Infelizmente, por publicidade, Tim inseriu essa personagem em tantas cenas que impossibilitou a atuação de ser brilhante, caso tivesse sido restrita ao necessário.

A Rainha Branca de Anne Hattaway (Amor e Outras Drogas), com seus gestos propositalmente exagerados convence como alguém alheia ao seu mundo e Tim é feliz na escolha de Anne como intérprete.

Mas quem rouba a cena mesmo é Helena Bonham Carter (Harry Potter). Sua Rainha Vermelha é muito bem construída, mostrando uma personagem mimada a cada vez que manda cortar a cabeça de alguém que te desagrada, usando seu poder para esconder sua fragilidade. É onipotente até que se oponham a ela.

Apesar de alguns pontos interessantes - mérito da direção de arte e não de Tim - Alice no País das Maravilhas é de forma geral muito fraco e pouco eficiente. Uma decepção, sabendo que foi feito por um verdadeiro mestre do cinema como Tim Burton, numa narrativa que para muitos não poderia ser adaptada por outra pessoa senão ele. 

CONFIRA O TRAILER 

domingo, 2 de maio de 2010

Por uma propaganda menos Nazista

Por Lucas Rolim

Protesto!

Protesto contra um mal que já nos aflige há décadas, mas que nos é tão sutilmente imposto que nos iludimos por esse pomo de ouro que é belo, mas só por fora, pois por dentro carrega a discórdia das relações sociais.

Falo da nossa publicidade que cria sonhos impossíveis, mundos imaginários, habitados pelas belas modelos de sex appeal inquestionável, e dos modelos com verdadeiras cadeias de montanhas em seus abdômens. Essa propaganda que vende um ideal de vaidades e ilusões que afundam famílias nos cartões de créditos, nas compras das roupas inúteis da última moda e TVs gigantes que não temos tempo de ver. A arte de comunicar, em seu sentido mais pejorativo, levando as pobres adolescentes à anorexia para se tornaram as mulheres de plástico narcisistas das passarelas ou nos vaqueiros valentões, sem pulmão, mais "machos" a cada cigarro.

Afinal, é disso que a sociedade gosta. É a roupa certa, o carro certo, o tênis correto que vão nos fazer tão felizes ao ponto das Giseles Budchens implorarem pela nossa companhia e os Ronalds McDonalds serem nossos melhores amigos. Correto?

NÃO! Esse não pode ser a energia propulsora de nossas vidas. Essa ditadura da informação que só te inclue no mundo se comprar e gastar sem se preocupar com as contas no fim do mês, que te faz abandonar os amigos porque eles são totalmente out e se aproximar de pessoas vazias que são in e te faz acreditar que não há outra opção, JUST DO IT.

Onde estão os aleijados, aidéticos, judeus, negros, cegos, feios e gordos na publicidade? Eles não são consumidores também? Creio que há duas possibilidades de resposta: 1° Todos os aleijados, aidéticos, judeus, negros, cegos, feios e gordos do mundo não possuem o menor talento para estrelarem um comercial ou, 2° as vagas para os comerciais foram todas preenchidas por modelos jovens, ricos, bonitos, mas de pouco talento, porque os publicitários sabem que o primeiro grupo jamais implacaria a venda de um carro ou de um serviço de seguros de um grande banco que tem tudo, menos você, pessoa perfeita. E como os publicitários ficaram tão inteligentes para descobrir que essa gente não vende, porque sua imagem assusta e faz os consumidores fugirem da vitrine? Será uma luz? Não. Eles sabem porque é o mundo que eles criaram. Esse mundo, fora do nosso mundo, com um ideal de beleza muito semelhante ao modelo de um tal de Hitler, um tal de Mussolini, dos louros de corpos saudáveis e perfeitos, "tão criativo", é só uma cópia bem maquiada do modelo nazista.

Quantos de vocês vivem neste mundo ideal, acordam e dormem num mundo feliz e perfeito, sem fome, sem violência, habitado apenas pelas ninfetas e heróis gregos? Creio que ninguém. Mas ainda assim, todos os dias o perseguimos abrindo mais e mais crediários, fazendo mais e mais horas extras, economizando mais e mais nas nossas necessidades básicas, alimentando essa utopia que jamais vai acontecer, porque simplesmente não existe. Ou seja, o erro também é nosso que recebemos de braços abertos diariamente esse bombardeio dos slogans "inovadores" da publicidade.

Que fique claro que a razão desse manifesto não é para o banimento da publicidade, muito pelo contrário, essa é uma das melhores ferramentas que nós temos para formar opinião. Esse texto é um alerta para mudarmos e não nos tornarmos tão cegos e subservientes à comunicação. Ao invés de se preocupar apenas em vender, vender e vender uma realidade que não é nossa, por que não se preocupar em construir uma sociedade melhor, do consumo justo, não indutiva e não seletiva? Por que uma montadora de automóveis ao invés de gastar milhões em propagandas nada criativas - iguais para todas as marcas - vendendo carros que nunca veremos a velocidade máxima por causa dos radares, não dedica parte dessa imensa verba numa campanha de conscientizaçáo do cinto de segurança, de dirigir embriagado, cobrar as autoridades sobre as péssimas condições das estradas? O consumidor ficaria muito mais satisfeito com uma marca que de fato se preocupa com a sociedade e não fica apenas empurrando produtos.

Cabe aos publicitários, mas sobretudo a nós, sociedade, fazer a cobrança por uma publicidade mais justa, real e refutar esse modelo que aí está, mantendo vivo um terrível fantasma do passado que com certeza queremos esquecer.

E para provar que uma propaganda assim é possível, coloquei um exemplo aqui do Brasil de um comercial de TV magnífico de uma grande marca de higiene pessoal, a Dove. Chama-se "Campanha pela real beleza"

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A Ilha do Medo



Por Lucas Rolim

Como é bom sair de casa para ir ao cinema já com grandes expectativas e ainda assim superá-las pelo filme visto. Pois foi exatamente essa a sensação que o novo filme de Martin Scorcese causa para quem espera apenas mais um filme policial com algumas características do cinema noir.



A história se passa nos Estados Unidos em 1954. Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) é um agente da polícia federal que, junto com seu parceiro Chuck Aule(Mark Ruffalo), é enviado a uma ilha onde há um presídio para criminosos com problemas mentais e de alta periculosidade, para investigar o desaparecimento de uma delas. Quando chega ao local medonho, os médicos e todo o corpo de policiais tentam dificultar seu trabalho, levando Teddy a suspeitar que há um esquema de corrupção e violência no local, desconfiando de que os criminosos são usados como cobaias de experimentos psiquiátricos.


Tudo parece simples e previsível, não fosse o paralelo que é feito por Scorcese com os sonhos do personagem principal. Teddy sonha constantemente com sua mulher, morta num incêndio criminoso, do qual ele se sente culpado por não tê-la salvo. Como não a tem mais no mundo real, a mantém presa no imaginário, sendo inclusive guiado por ela na sua investigação e recebendo a dica de que o seu assassino está preso na ilha. Assim, a trama começa a se dividir entre desvendar o desaparecimento de uma presidiária e se vingar do assassino da mulher.




O presídio em si é um personagem a parte. Surge com uma trilha sonora que parece nos guiar ao próprio inferno e quando cessa vemos que não estamos de todo errado: o local se mostra ameaçador, tenso e claustrofóbico. E é aí que a direção de arte faz um trabalho fundamental. Por fora o presídio possuí jardins com verdes vibrantes e paredes em vermelho. Mas por dentro o ambiente se mostra apertado, escuro, predominando o cinza e o preto, contrastando com momentos onde é amplo, porém com um branco cegante que nos deixa a beira da loucura.

Mas o grande mérito do filme é sem dúvida de Martin Scorcese. O modo como ambienta a trama, usando a trilha sonora de modo bastante eficaz e nem um pouco óbvio geram tensão e frustração. Na narrativa, a todo o momento ele parece nos guiar para a solução do mistério, pra logo em seguida nos despistar, como quando Chuck cai de um penhasco, indicando seu assassinato, sendo quebrado logo em seguida com as revelações feitas a Teddy pela médica refugiada Dr Rachel sobre a fidelidade e integridade do próprio amigo, nos levando a duvidar se ele está mesmo do lado de Teddy. Isso nos deixa a completamente perdidos por um bom tempo, e até mesmo o final pode parecer confuso para alguns. O diretor acabou guiando o espectador o tempo todo conforme sua vontade.



Di Caprio compõe um personagem interessante desde início. Duro, mas assim pelo massacre que testemunhou (e de outro que participou) como soldado na 2ª Guerra, expressando ao mesmo tempo uma aparência de eterno luto pela mulher: apático, descuidado com sua saúde e com um olhar vermelho e lacrimejante de quem ainda chora a perda. Contudo, ao longo da narrativa o policial duro começa a ceder a uma inquietação e explosões de violência conforme vem surgindo obstáculos, revelando tremores, alucinações e enxaquecas constantes. Não demora muito pra que sua aparência seja idêntica aos dos outros internos do presídio.



Ruffalo (Chuck) é eficiente como parceiro de Teddy remetendo nossa lembrança diretamente aos filmes noir. Reparem por exemplo na posição de seu queixo para um dos lados por todo o filme, parecendo um daqueles capangas caricatos da máfia italiana.
Ben Kingsley também faz um ótimo trabalho interpretando o mesmo personagem - o diretor psiquiátrico do presídio - com dois perfis totalmente distintos com o desenrolar da narrativa, sem praticamente perder o tom e postura iniciais. O mesmo não se pode dizer da artificialidade de Michelle Williams, como a mulher de Teddy.


O roteiro adaptado de Laeta Kalogridis também se mostra surpreendente. Já durante a investigação se revela bem complexo e bem construído, sendo esses dois primeiros atos já ótimos para encerrar o terceiro de forma previsível, porém fantástico. Mas a reviravolta que a narrativa dá (e que não será revelada aqui) o torna uma obra-prima digna de ser admirada e estudada mais de uma vez.
Embora tenha ressaltado minha euforia com minhas expectativas mais do que superadas com A Ilha do Medo, creio que seja difícil ele cair no gosto popular por não ser uma história tão fácil de entender. Esse é um ponto que pesa muito para que um filme faça ou não sucesso. Mas independente disso, A Ilha do Medo é um filme inteligente, complexo e reflexivo que com certeza vale muito à pena assistir.


NOTA: 10.0


CONFIRA O TRAILER (Legendado)




domingo, 4 de abril de 2010

Chico Xavier



Por Lucas Rolim
É sempre bom temos a oportunidade de ver uma personalidade brsileira como Chico Xavier ser homenageado, tendo sua história registrada nos cinemas e levadas a todos que o conhecem e para os que não conhecem, terem seu primeiro contato com a história desse homem que só pela sua filantropia já é magnífico em sua existência.

O filme conta a história de Chico desde seu primeiro contato com os espíritos na infância, passando pela sua vida adulta e até o episódio do caso José Divino, onde um assassino foi absolvido do crime graças a uma carta psicografada por ele, já velho. Boa parte do conteúdo da narrativa é retirada da sua participação no Pinga Fogo de 1971 na TV Tupi, uma espécie de Roda Viva da época, apresentado por Saulo Guimarães, excelentemente interpretado por Paulo Goulart.

Dirigido por Daniel Filho, o longa chega pra ser mais um estouro de bilheteria no Brasil. A começar pelo vasto elenco de atores globais: Nelson Xavier, Tony Ramos, Cássia Kiss etc. Embora seja uma tática excelente para lotar as salas de cinema contar com um elenco desse, a narrativa perde bastante dispersando o foco do espectador com os atores que surgem, em especial os que fazem apenas algumas pontas. Sem contar que isso confere um certo ar de novela ao filme.

Daniel acaba fazendo também uma certa confusão no que diz respeito a montagem do longa. Durante a entrevista, Chico cita alguns momentos de sua vida que vêm seguidos de um zapping (uma ponte para um suposto flashback) que leva a um momento de sua vida que não tem nada a ver com o que ele estava falando anteriormente, ficando duas coisas totalmente desconexas. Reparem quando ele é questionado sobre seu mentor, Emmanuel, ele começa a falar de sua influência e quando vem o zapping é contada a sua relação na infância com a madrasta. Quase 20 minutos depois de citar Emmanuel é que assistimos ao eu encontro com o mentor.

Um outro problema é que o roteiro de Marcos Bernstein ameniza todas as polêmicas que cercaram a vida do médium. Excetuando sua infância, onde vemos o quanto sofreu com penitências da igreja e torturas da madrinha, na vida adulta tudo é amenizado e mal explicado. Ele é processado por fraude e só depois de muito tempo sabemos os detalhes desse processo, mas não os detalhes de seu desfecho. O padre Júlio, interpretado por Cássio Gabus Mendes, surge como um inimigo declarado de Chico, indicando que haverá uma batalha severa contra ele por parte da Igreja e, no entanto, vemos o Padre pregar para um número mínimo de fiéis na frente da casa de Chico, sem que ninguém dê ouvidos e passando por ridículo, sendo que quem conhece a biografia do médium sabe o quanto a Igreja lutou para desmoralizá-lo diante do povo e quase conseguiu muitas vezes. Esses são somente alguns dos muitos exemplos que vou economizar nessa crítica.

Mas apesar dessa falha, é importante frisar que é muito inteligente o trabalho feito sobre a personalidade do médium, não optando por mostrar um homem que vive só pela religião, mas muito pelo contrário, um sábio nos mais diversos assuntos mundanos e sem despontar em nenhum momento para o fanatismo religioso, a ver pela cena em que ele dá a sua visão sobre o que é o sexo para o Espiritismo.

Agora, há uma cena no longa que quero destacar porque mostram o quão geniais e criativos são alguns de nossos diretores que com pouco orçamento fazem trabalhos fantásticos. É a cena da transição de Chico da infância à fase adulta num único plano no cemitério, onde Daniel Filho faz um plano detalhe em sua caminhada para efetuar o processo. Veja nessa cena o quanto muda a paisagem da serra de Pedro Leopoldo em tão poucos anos. Na sua infância ela é praticamente toda verde, com algumas casas salpicando cenário, na fase adulta as casas tomam conta de toda serra, tornando o cenário mais sufocante e mostrando o rápido crescimento urbano desse período. Pode parecer óbvio, mas muitos diretores deixariam passar esse detalhe.

Mas o ponto alto da narrativa mesmo é o trabalho dos três atores que interpretam Chico Xavier: Matheus Costa (criança), Ângelo Antônio (adulto e Nelson Xavier (velho). A semelhança entre Nelson e Chico é impressionante, parecendo até que não haveria espaço para que outro ator o interpretasse. Matheus também, apesar de muito novo, é o único que nos garante o verdadeiro sofrimento que Chico passou na sua vida, a ver pela pedra pesada que ele teve que carregar na cabeça numa cena de penitência.

Porém, das três atuações, a de Ângelo é sem dúvida a melhor. Como é bom poder trabalhar com um ator de extrema competência que encara sem medo seu papel. Só para citar um exemplo, vou destacar a cena de sua primeira psicografia: seu trabalho corporal, que escreve muito rápido, faz movimentos bruscos e deixa claro o quanto aquilo está consumindo sua energia sem apelar para nenhum exagero.

Um outro ator que merece destque é Luís Melo, no papel de pai de Chico. A cena em que um de seus filhos morre é tocante ver seu sofrimento. Apesar da ingenuidade em relação a mediunidade do filho e a revolta dos poderes do mesmo não trazerem retorno a sua família, Luís interpreta um personagem carismático na sua simplicidade, sendo essas explosões, apenas situações momentâneas de desespero e de desejar um futro melhor a quem ama sem saber como fazê-lo.

Quanto a segunda trama, a do casal Garcez, não vou entrar em muitos detalhes, senão vou revelar muita coisa pra quem não viu o filme ainda. Só quero frisar o erro e o exagero em mostrar o personagem de Tony Ramos a todo o momento. Cada vez que ele aparece nos estúdios do Pinga Fogo, suas falas que muitas vezes são dispensáveis, se sobressaem as de Chico impedindo que o espectador ouça quem é mais interessante de se ouvir no momento, ou seja, o médium.

Por fim, o que se espera quando se vê um filme de uma personalidade tão polêmica quanto foi Chico Xavier é sempre sair da sala apto a discussão pró ou contra o papel que desempenhou na sua vida e na sociedade. No entanto, Daniel nos tira essa oportunidade, enfatizando só as rosas de seu caminho e ocultando os espinhos. Mas de qualquer forma, só de contar a história desse homem admirável e um exemplo para todos, o longa mais do que vale a pena.


NOTA: 7,0

CONFIRA O TRAILER

domingo, 28 de março de 2010

O Livro de Eli


É impressionante como o fim do mundo parece ter contaminado o cinema de Hollywood. Nos últimos anos, vimos sua destruição (ou tentativa de) várias vezes. Filmes como Guerra dos Mundos, 2012 e Eu Sou a Lenda, sem contar com A Estrada que ainda vai estreiar, são só alguns dos muitos exemplos. Seja apontando desastres naturais, pandemias ou guerras, o tema central acaba sempre sendo o mesmo.

No filme dos irmãos Hughes não é diferente. Em O Livro de Eli, Denzel Washington interpreta Eli, um andarilho que trás consigo um único exemplar da Bíblia Sagrada vagando por todo um mundo pós-apocalíptico, onde o homem regressa a uma condição primitiva devido ao excesso de luz solar, derivada de uma explosão- metáfora à razão - que os cegou e destruiu, invertendo a ordem das coisas, onde o rato come o gato, e as trocas comerciais se fazem com escambo.

No entanto, seu livro, única fonte de salvação daquela civilização, é alvo dos interesses de um decadente mafioso interpretado por Gary Oldman, Carnegie, querendo usar a Bíblia como ferramenta de poder e dominação. Isso gera uma discussão interessante em relação à função dicotômica da religião na sociedade, desempenhando tanto o papel de destruição, quanto de salvação.

Com um roteiro de Gary Whitta pobre e muito falho na sua dinâmica e de certa forma bastante previsível, a narrativa tem até sua metade muita ação fazendo crer que será inteira de tirar o fôlego. Mas daí pra frente há um completo estado de estagnação, parecendo que de um filme de ação, repentinamente se torne um culto religioso. Outro detalhe, a suposta guerra que destruiu todo o planeta Terra foi iniciada devido ao poder maquiavelicamente exercido pela Bíblia, fazendo com que todos seus exemplares (exceto o de Eli) fossem destruídos. Porém, é difícil de engolir que uma instituição falida como a Igreja Católica, repleta de escândalos sobre pedofilia, tenha iniciado uma guerra, uma vez que seu poder hoje em dia está muito aquém do poder que exercia até a Idade Média.

Mas para compensar a história fraca, há um trabalho magnífico em conjunto com a cenografia e a direção de arte do longa. A destruição do mundo foi tão intensa, carbonizando e poluindo tudo que mesmo filmado a cores o filme parece na maior parte do tempo ter sido filmado em preto e branco. Além disso, nas cenas de ação é feita a opção genial de usar o mínimo de cortes, enfatizando mais os combates em planos longos ao invés de tentar iludir o espectador tentando mostrar tudo e todos ao mesmo tempo. Observe na cena do combate do bar, como a câmera dá um giro em torno de Eli num único plano de toda luta, mostrando-o de todos os ângulos, ao invés de esgotar a cena com uma série de cortes secos.


Quanto a cenografia, talvez seja um dos pontos mais quentes do filme. As paisagens surrealistas criadas em computador são vastas e parecem não ter fim, tornando tudo uma coisa só. Reparem por exemplo, na cena em que Solara está caminhando sozinha na pista, logo depois de escapar de uma caverna: por mais que ela ande, nos dá a impressão de que não sai nunca do lugar. Também os poucos lugares habitáveis, são escuros, destruídos e tortuosos, com fortes características expressionistas. Isso sem falar na cidade dominada por Carnegie que lembra muito as pequenas cidades no meio do nada do Velho Oeste.

O mesmo não se pode dizer dos personagens. Eli parece até interessante no começo, roubando as botas de um cadáver, já deixando bem claro que trata-se de um anti-herói (inclusive nessa cena, um tropeço na sala nos dá uma pista de sua condição física que só será revelada no final). Também é impressionanate o quão sensorial e rápido ele é, evidenciado pela primeira cena de ação do longa, onde ele fareja os bandidos e os derruba numa questão de segundos (quem conseguiu enxergar ele cortando a mão do ladrão?). Impressiona também sua crueldade, pois não há uma razão explícita para matar lentamente um homem sem uma das mãos e, a partir de então, inofensivo. Porém, passadas as cenas de ação ele deixa de ser interessante, pois o roteiro não permite mais isso, preferindo torná-lo uma espécie de Moisés que é guiado pelo oeste há 30 anos (como é grande os EUA) por uma misteriosa voz do além, numa missão divina.

Solara então é uma personagem cuja única função no filme inteiro foi revelar a Carnegie que Eli portava a Bíblia, fora isso ela não fez mais nada, ou seja, ela é totalmente descartável na narrativa.

Já Carnegie sim é um personagem interessante. Surge lendo a biografia de Mussolini, evidenciando seu papel naquele contexto. Se porta imponente perante todos, mas rapidamente percebemos o quão fraco e dependente ele é de todo mundo. Não faz nada sem a ajuda de seus capangas e precisa torturar quem está a volta para chantagear quem está por perto e atingir seus objetivos. Conhecedor das poucas fontes de água daquela região, ele escraviza quem está a sua volta em troca desse que é o maior tesouro daquele tempo. Reparem no sorriso tímido que seu braço direito, Redgrave, dá pouco antes de morrer, num gesto de gratidão por estar se libertando de seu capataz. Outra cena interessante é o quanto ele se humilha a sua escrava depois de ter uma surpresa muito desagradável com a Bíblia que ele finalmente conseguiu tomar de Eli.

E o mais curioso do filme é o fato de o local da salvação do mundo ser exatamente um dos presídios mais famosos da história: Alcatraz. E, a Bíblia sendo impressa no tipógrafo é uma clara alusão à Guttenberg e sua revolucionária invenção, numa metáfora do recomeço daquela civilização. Quer dizer, recomeço até mais um "super-criativo" roteirista resolver destruir o planeta novamente.

NOTA: 5

CONFIRA O TRAILER (legendado)



sábado, 20 de março de 2010

Coração Louco


"Passei a maior parte da minha vida da minha vida bêbado". Essa frase que comove e que é tão presente de Bad, nos mostra o quão triste é ver muitos dos nossos ídolos disperdiçarem uma vida inteira em função do vício, jogando seu talento e a capacidade de fazer do mundo um lugar melhor no lixo.

No filme, Jeff Bridges interpreta o cantor de música country Bad Blake, que fez muito sucesso no passado, mas que agora foi derrotado pelo consumo excessivo de álcool. Sua vida se resume a viajar de cidade em cidade com seu carro velho e tocar em bares minúsculos para um público que já está no fim da vida. Sua frustração com a carreira decadente e com o sucesso feito por seu discípulo, fazem de Bad uma pessoa medíocre e auto-destrutiva a começar na cena em que ele abandona um show na metade para vomitar de tão bêbado que estava. Porém, tudo isso começa a mudar quando ele se apaixona por uma jovem repórter chamada Jean, intepretada por Maggie Gyllenhaal e , inspirado por ela, começa a compor novamente.

Escrito e dirigido pelo iniciante Scott Cooper, o filme tem trilha sonora cantada pelos próprios atores, deixando o público mais envolvido com a narrativa. Também é interessante como Bad é mostrado no início do filme: quando está viajando, os planos são abertos, mostrando a aridez dos cenários no sul dos EUA onde ele sempre está sozinho frente a toda aquela imensidão, resumindo daí o que se tornou sua vida. Nos shows, ele trabalha com planos médios, mas mais primeiros planos, mostrando um homem cansado e derrotado, gerando pena no espectador. Reparem que sempre enquanto Bad está se apresentado Cooper faz um corte seco para algum lugar árido, onde Bad está solitário e em alguns casos em situaões medíocres (sempre bêbado!).

Porém há duas falhas graves na sua direção: Primeiro é o uso obcecado de primeiro e primeiríssimo plano nos personagens em quase todo o filme. Tudo bem que há momentos geniais nisso, como quando Bad está caminhando entre dois ônibus do show de Tommy Sweet e podemos ver o quão pequeno ele é perto de seu discípulo. Mas no geral, seus planos não somam muito à narrativa. O segundo problema é o modo artficial como ele trabalha os personagens: a transformação repentina e artificial que Bad tem ao ver pela primeira vez o filho de Jean. E pior, a função de quase um deus ex machina que Wayne (Robert Duvall) tem na narrativa.


O que há de mais genial na direção de Scott é a falsa ideia que ele nos dá sobre o perfil de Tommy Sweet. Até ser apresentado ao público, a descrição dada a todo tempo por Bad, nos passa a sensação dele ser um egocêntrico e usurpador da carreira de seu mentor. Contudo, quando nos é finalmente apresentado, Tommy Sweet(Colin Farrell) se mostra (como diz o próprio nome) uma pessoa doce, devota e grata a Bad e talvez seu maior fã. Daí vem a prova de que foi Bad e seu vício os maiores responsáveis pelo seu declínio, sendo Tommy alguém que ele escolheu para culpar.

O seu roteiro porém apresenta falhas graves: é completamente inexplicável o desaparecimento do filho de Jean, Buddy, e o modo como ele é encontrado, ou seja, Scott só criou essa cena para ter um motivo para separar Jean de Bad (num plano eficaz onde cada um está sentada de um lado do quadro no hotel) e para impulsionar Bad a se tratar de seu vício. A impressão que dá é que se nada disso tivesse acontecido, eles nunca se separariam e Bad seria pra sempre um alcoólatra. Também na recuperação de Bad na clínica - a parte mais difícil para todo dependente - não vemos nada de seu tratamento, somente ele entrando viciado e saindo curado.

Mas apesar das falhas de direção e roteiro, a atuação de Jeff Bridges acaba contrapondo como o ponto quente da narrativa. Já na apresentação do personagem, onde ele aparece xingando e blasfemando já vemos sua insatisfação com a vida. Além disso, toda a revolta que dá quando o vemos bêbado se apresentando é transformada em comoção quando logo em seguida o vemos em quartos de hotel escuros e clautrofóbicos, abandonado e bêbado. E Jeff se aproveita disso trabalhando sutilmente a evolução de seu personagem que quando menos percebemos, Bad Blake (agora Otis Blake) se transformou em outra pessoa. Cito por exemplo, o fato de quando ele não está com uma guitarra na mão, está com um copo de McCluher Whiskey - onde vemos o quão talentoso ele é e logo em seguida seu principal obstáculo, a falta de auto controle - e como no futuro ele tem a maturidade de reconhecer seu problema e se entrgar a uma recuperação. Também quando logo em seguida ele leva um fora de Jean onde um primeríssimo plano nos faz pensar que ele se entregará novamente ao alcóol, e mais uma vez somos enganados vendo ele organizar sua casa desarrumada, uma metáfora da organização que esta fazendo em sua vida. E como não se comover quando encontra uma camiseta do pequeno Buddy com o símbolo do SuperMan, mostrando o herói que aquela criança foi para sua recuperação.


Mas há os méritos de Colin Farrell também. Apesar de ser um ídolo, Sweet é devoto e eternamente grato ao seu mentor se mostrando mais preocupado em ajudá-lo do que se beneficiar de suas músicas. E nas duas cenas onde ele entra para apresentar seu show é possível ver uma expressão de nervosismo de um novato em seu rosto, por se sentir um amador perto de seu mestre, além de ser muito humilde. E é essa humildade que faz dele um sucesso. Observem a cena em que Bad abre seu show: quando ele toca, a câmera faz um giro em suas costas, mostrando uma platéia que embora esteja lotada é mostrada totalmente escura, não sendo possível ver nem quem está na primeira fila. Mas quando Tommy toca, o mesmo giro é feito e a mesma plateia é apresentada iluminada, em volume e em coro pelo seu ídolo. Bad não aceita e Sweet não reconhece, mas Sweet é o melhor dos dois.

O mesmo não se pode dizer de Maggie Gyllenhaal que interpreta sua Jean de modo comum e nem um pouco envolvente. Em nenhum momento nos passa a sensação de alguém que realmente sofre pelo que passou com os homens em sua vida, a ver pela velocidade em que se entrega a Bad. Mas o pior de todo o filme é Robert Duvall que surge sem mais nem menos com seu Wayne somente nos momentos onde faz "mágicas" na vida de Bad e salvando sua vida, seja com conselhos, seja levando a uma clínica de tratamento.

Mas independente das falhas no roteiro e direção, o interessante do filme é entender o quanto o vício e o exagero podem ser fatais em nossas vidas sem que a gente se dê conta disso, preocupados apenas com nosso presente e pensando num futuro utópico que não acontecerá. Entretanto, também ficamos com a sensação que, com um passo de cada vez e reconhecendo nossa culpa, podemos nos reerguer e seguir em frente, mas é inevitável que deixemos cicatrizes no caminho.


NOTA: 7


Por Lucas Rolim

CONFIRA O TRAILER (legendado)